Blaine cavalgou duramente a noite inteira, até
amanhecer. Ele não queria exaustar os cavalos, mas também não queria ser pego.
Não tinha como saber quanto tempo iria passar até que Dronyen mandasse seus
homens atrás deles, ou o quanto ele iria se esforçar para pegá-los. Do outro
lado, muitos sidhes passaram por suas mãos. Ele os usava e abusava até que
estivessem feridos demais para serem usados ou até o dia em que eles
simplesmente sumiam discretamente.
Não era ilegal matar algo que fosse de sua posse. Mas
era considerado grosseiro o bastante chamar atenção para o fato.
Porém, Blaine viu como Dronyen olhava para Kurt. E ele
sabia que Dronyen havia visto alguma coisa nele que Blaine também viu. Dronyen
não viu apenas um prazeroso modo de passar o tempo, ele viu ferocidade no olhar
do sidhe. O orgulho. A força. A firme recusa em quebrar.
Dronyen era um verdadeiro
sadista. Isso Blaine sabia.
Muitos aristocratas iriam ficar chocados ao ouvir que
o que eles faziam a seus sidhes era descrito como estupro. Seus escravos
estavam lá simplesmente para lhes dar prazer econsentimento era um
conceito estranho nessa situação. Claro que isso era cruel, mas a maioria
desses homens era genuinamente ignorante sobre sua própria crueldade. Alguns
deles provavelmente até se convenceram que suas vítimas gostavam da atenção.
Mas Dronyen? Dronyen provavelmente iria amar
pensar nisso como estupro. Isso provavelmente faria seu dia.
Ele gostava de fazê-los sofrer. Ele gostava de
quebrar seus escravos.
E a extensão das contusões em Kurt naquela primeira
noite? Sugeria um nível exagerado de entusiástica brutalidade, até mesmo para
Dronyen.
Então era possível que Dronyen pudesse persegui-los
insistentemente. Era possível que ele percebesse quão precioso e único Kurt
era, mesmo que fosse as mais horríveis e erradas razões imagináveis.
E ainda tinha o Blaine. Dronyen provavelmente devia
estar tremendo de raiva diante da traição e audácia. Um simples camponês
bolsista, lhe dado uma posição de prestígio na corte, como futuro mão direita
do príncipe. E é assim que o agradece.
Dronyen provavelmente o usaria como exemplo. Se
Dronyen ou um de seus homens o encontrasse, ele seria morto. Simples e rápido.
Ou talvez não tão simples. Sem dúvida Dronyen
preferiria assassiná-lo lentamente e do jeito mais complicado possível.
Ele seria torturado publicamente, e Blaine não ficaria
surpreso se isso durasse por semanas. Ele soube disso desde o começo, desde que
ele decidiu libertar Kurt.
Blaine só pedia aos Deuses uma coisa: que eles não fossem
pegos antes que a verbena saísse do organismo do sidhe. Porque mesmo que eles
fossem pegos e Blaine morto, mesmo que quebrassem sua mente, corpo e alma em um
milhão de pedaços, eles não seriam capazes nem de tocar Kurt totalmente
recuperado. Eles não conseguiriam nem chegar perto.
Blaine cavalgou até não conseguir manter os olhos
abertos, até que seus músculos tensos estivessem doendo tanto que pareciam que iam cair. Ele seguiu o caminho que tinha
planejado que os levaria até uma rota que Blaine esperava que não atraísse os
guardas de Dronyen.
Quando ele decidiu que tinham chegado longe o
bastante, que não tinha como ele ou os cavalos aguentarem mais, ele os guiou
para fora da desgastada estrada que vinham seguindo pelas últimas horas,
adentrando a floresta. Encontrando uma clareira adequada, ele desceu da
carruagem, e desabou tão logo seus pés tocaram o chão.
Ele se permitiu simplesmente deitar desse jeito mesmo.
E tinha certeza que tinha até cochilado um pouco. Sons e imagens passavam pelo
canto de seus olhos quando consciente, e ele não sentia seu corpo, o que nesse
momento era uma benção.
Após um ligeiramente indeterminado período de tempo
(Uma hora? Duas? Cinco?) ele se levantou, sentindo sua cabeça explodir com a
pressão de tudo que ele tinha que fazer.
O que ele viu deixou-o
chocado.
O dia estava claro, os cavalos pastando e bebendo de
um córrego a beira da clareira que Blaine não tinha nem percebido antes. A
tenda que ele tinha guardado estava montada perfeitamente entre duas árvores, e
esse quente, amadeirado cheiro não era apenas parte de um sonho
estranhamente vívido, porque Kurt havia feito uma fogueira. O elfo estava sobre
um caldeirão que estava fervendo e expelia um delicioso aroma.
E – era isso mesmo? – Sim. Blaine estava envolto num
cobertor.
Ele se levantou lentamente, tentando sua habilidade
para se mover. Ao gemer tentando se alongar, Kurt se virou para encará-lo.
Havia uma suavidade em seu olhar não Blaine não tinha
visto antes. Isso fez com que prendesse sua respiração e o mundo girar ao seu
redor por um momento.
– Oi. – Blaine cumprimentou sorrindo enormemente.
– Oi. – Kurt não correspondeu seu sorriso, mas a
suavidade continuou. No entanto Blaine conseguiu alcançá-lo, nem que fosse um
pouco.
– Você- você não precisava fazer tudo isso. Eu ia-
– Deitar e morrer? Sim, você ia. Eu não consigo
acreditar que você fez os cavalos se esforçarem tanto. Eles estavam
ligeiramente melhor que você. Coitados.
Blaine suspirou. – Eu tinha que nos levar o mais longe
possível.
– Eu entendo. Mas Blaine, podemos ficar aqui pelo
menos até amanhã? Os cavalos precisam descansar. Você precisa descansar. Você
não é útil para mim se nem ao menos consegue ficar em pé.
Blaine tentou controlar sua alegria, apenas sorrir.
Kurt ainda parecia desconfiado e tenso e com certeza não tinha confiança no
moreno de cabelo cacheado, mas ele ainda disse...
– Então você planeja
ficar comigo?
Kurt voltou sua atenção para o caldeirão rapidamente.
– Sim, por enquanto, se sua oferta ainda está de pé. Você está certo sobre a
verbena. Tão fraco como estou agora, eu não duraria nem uma semana sozinho. Seria
pego e vendido novamente, e o próximo poderia ser até pior que Dronyen.
Blaine sentiu seu corpo retesar de ódio. – Eu não acho
isso possível. – ele respondeu.
Kurt ficou em silêncio
por um momento.
– Bem, mesmo assim. Eu acredito que já tive o bastante
sendo tratado como propriedade dos homens humanos.
Blaine não conseguiu segurar as lágrimas, então ele
nem tentou. – Sinto muito, Kurt. – ele disse quebradamente.
Kurt voltou a encará-lo. Acenou com a cabeça e voltou
sua atenção ao caldeirão.
Kurt fez um ensopado incrível de ervas secas que
Blaine tinha empacotado, como também uma variedade de vegetais e raízes que
encontrou na floresta enquanto Blaine dormia.
Estava delicioso, mas...
– Por que você não usou nada da carne seca ou peixe
que eu trouxe? Tem o bastante.
Kurt encarou sua tigela por um momento, parecendo
quase temeroso, como se esperasse levar um tapa.
– Não... Eu não quis... Está ótimo do jeito que está.
Eu só queria ter certeza que você sabia que pode usar o que quiser. Sirva-se. Tudo isso é tão meu quanto seu.
Kurt o olhou de relance hesitantemente. – Tudo bem.
Obrigado Blaine, mas eu prefiro não comer carne de animais.
Blaine olhou surpreso. –
Oh. Mas você sempre...
– Eu sempre comi porque era preciso para eu continuar
vivo. Eu fiz muitas coisas que não gosto para continuar vivo. Mas meu corpo não
digere carne bem, e para se honesto, me dói o coração comer isso. Então se está
tudo bem, eu continuarei a não comer.
– Claro que está tudo bem. Eu apenas... Não sabia. Eu
espero que tenha trazido o bastante de outras coisas.
Kurt sorriu. – Eu sou muito bom em encontrar plantas,
e há muitas coisas que eu posso comer e você não, então apenas fique com a
carne para você e estaremos bem.
– O que você come normalmente? – Blaine perguntou
interessado. – Quando você era- Antes de você ser-
– Escravizado?
– Sim.
Kurt deu de ombros. – Geralmente folhas e flores.
Raízes e grama, frutas ocasionalmente. Por exemplo, isso – Kurt arrancou uma
folha de um arbusto do lado – é bom o bastante para mim. – ele colocou a folha
em sua boca e comeu com gosto.
Blaine sorriu. – Qual é
sua comida favorita?
– Madressilva.
Blaine quase bateu palmas de alegria. – Eu sabia!
Minha avó – ela me disse que sidhes amam madressilva. Nós deixávamos
cestas cheias na varanda para que abençoassem nossa casa.
Kurt o olhou intrigado. –
Da onde você é?
– N'auri. É uma região pequena, divisa com Villalu do
Norte, perto do Mar do Leste.
Kurt assentiu. – Já ouvi sobre esse lugar. Há algumas
feririars nômades nessa área. Não é bem um ambiente de comércio de escravos
pelo que eu sei.
– Não mesmo. Eu nem sabia sobre escravização de sidhes
até os doze anos. O primeiro sidhe que eu vi era livre.
Kurt sorriu ao ouvir isso. E o coração do moreno pulou
ao ver isso.
Blaine tentou parar ai. Ele tentou. Realmente tentou.
Mas não conseguiu.
– ... Como você.
Foi como se portões de ferro se fechassem por trás do
olhar do sidhe, o encarando tenso. A suavidade sumira. Aquele sorriso que
Blaine finalmente tinha conseguido do sidhe desaparecera sem deixar rastros.
Kurt abraçou-se defensivamente e cerrou a mandíbula, desviando o olhar longe de
Blaine.
Blaine engoliu em seco. –
Sinto muito Kurt, eu não devia-
– O que você quer de mim, Blaine? Seja sincero, por
favor.
– Eu apenas quero ajudar-
– Para. – Kurt voltou seu olhar brilhante e feroz a
Blaine. – Eu não quero ouvir sobre como você quer me ajudar, nem como você quer
ser uma boa pessoa, ou como isso é um jeito distorcido para você alcançar
redenção. Eu quero que você me diga porque você está fazendo isso, e eu
quero que você me diga agora mesmo.
Blaine encarou esse olhar brilhante azul e sentiu a
ordem o afetar profundamente. Ele literalmente sentiu Kurt ler a verdade em
seus olhos.
– Porque eu estou
apaixonado por você.
Kurt arregalou os olhos,
horrorizado. – Oh Deuses. – ele gemeu.
– Me desculpe! Eu só... É verdade Kurt. Desde a
primeira vez que te vi, eu...
– Isso não é verdade.
– Você não me ama, Blaine. – ele cuspiu,
apertando o abraço a si mesmo. – Você fantasia comigo. Você ama a idéia
de me amar. Você mal me conhece. Me vê apenas como uma criatura frágil e
delicada que precisa da sua ajuda e então o quê? Você espera que eu me dê a
você? E isso é diferente do que Dronyen me comprando e me usando como
uma possessão porque você conseguiu romantizar isso? Para fazê-lo parecer o
nobre herói no meio de tudo isso?
– Não, Kurt! Isso não é-
– Tudo bem. – Kurt disse, sua voz adquirindo um tom
perigosamente meloso, olhar brilhando com malícia. – Porque eu não sou
uma criatura frágil e delicada. Como eu disse antes, eu faço o que é preciso
para sobreviver. E isso não é nada novo. Eu entendo. Você está fazendo algo
para mim, então eu devo te dar algo de volta.
Ele engatinhou até o outro, subindo em seu colo.
Blaine estava congelado pelo choque.
– Então você é do tipo romântico. Como é que vai ser?
Beijos e sussurros insignificantes a luz da lua? Fazer amor, lentamente
e gentilmente, olhando um para o outro? – Kurt ronronou.
Ele se inclinou e beijou Blaine nos lábios. E o ato
arrancou Blaine de seu choque e o jogou de volta em se corpo, acordando-o para
o presente, para o que estava acontecendo no momento.
Com um salto Blaine ficou de pé, derrubando Kurt no
chão. Tocando seus lábios, assustado pela confusão que o afligia.
Sentir os lábios do sidhe tinha sido maravilhoso...
Mas a situação era tão, mas tão errada.
– Eu não quero isso,Kurt. Simplesmente não.
Olhando nos olhos do outro, uma tempestade de intensas
emoções explodindo em seus olhos azuis.
– Então o quê você quer de mim? –
lamentou, desabando em lágrimas.
A intensidade de seu colapso superou aqueles soluços
angustiantes que Blaine se lembrava da primeira noite do sidhe no castelo de
Dronyen. Kurt segurou seu rosto nas mãos e apoiou os cotovelos nos joelhos.
Blaine se agachou e bem, bem lentamente tocou o ombro do outro cautelosamente.
Quando Kurt repeliu o toque, ele retirou sua mão rapidamente.
Então Blaine apenas se
sentou do seu lado e esperou.
Kurt chorou por um longo, longo tempo. Havia raiva, e
dor, mas principalmente havia um medo profundo em seus soluços.
Blaine queria tanto
abraçá-lo.
Quando finalmente as lágrimas começaram a diminuir,
com o olhar lacrimejante Kurt encarou o outro, a pergunta ainda pairando entre
eles.
– Eu não sei o que dizer Kurt. – Blaine suspirou. –
Talvez o que estou sentindo não é verdadeiro, eu não sei, mas eu acredito que
é. E o que eu quero é que você seja livre e feliz, mesmo que eu tenha
que morrer para fazer isso acontecer. E o que eu não quero é que você me
beije, ou... Ou me toque de qualquer maneira, a não ser que seja algo que você
queira. Não porque você me deve ou porque eu espero que isso aconteça, mas
porque você quer isso. E mesmo que você nunca queira isso... Tudo bem, também.
– Eu não sei se consigo
acreditar em você. – ele disse.
Blaine deu de ombros. – Talvez eu ainda não tenha
feito por merecer. Espero que eventualmente isso aconteça. – E sorriu para
Kurt. Era um sorriso cauteloso. Blaine tentava transmitir carinho sem
expectações e não tinha certeza se tinha conseguido.
Para sua surpresa, Kurt sorriu de volta. E Blaine
sentiu-se aquecer por dentro.
– Eu espero também. –
Kurt respondeu suavemente.
Eles dormiram em lados
opostos da tenda.
Blaine caiu num sono leve, e encontrou-se olhando para
Kurt nos intervalos de seu sono. Era difícil vê-lo na escuridão da tenda, mas
Blaine conseguia fazer os contornos do corpo do outro, os subir e descer de seu
peito. Conseguia ouvir a quase musical respiração suave, e o conforto que isso
lhe dava era esmagador.
E não percebera que não era o único de olhos aberto na
tenda essa noite.
Não vira o elfo olhá-lo de relance de vez enquanto,
quando sua respiração estabilizava pelo sono, nem vira o outro homem traçar as
curvas de seu corpo, do ombro ao quadril, com seus olhos.
Ele não viu Kurt caindo no sono com um sorriso nos
lábios quando finalmente, depois de encará-lo por tanto tempo, que não
conseguia manter mais os olhos abertos.
E ele não percebeu que, pela primeira vez em muitos,
muitos anos, Kurt finalmente dormia sem medo.


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