terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Capítulo 3 - The Sidhe


Blaine cavalgou duramente a noite inteira, até amanhecer. Ele não queria exaustar os cavalos, mas também não queria ser pego. Não tinha como saber quanto tempo iria passar até que Dronyen mandasse seus homens atrás deles, ou o quanto ele iria se esforçar para pegá-los. Do outro lado, muitos sidhes passaram por suas mãos. Ele os usava e abusava até que estivessem feridos demais para serem usados ou até o dia em que eles simplesmente sumiam discretamente.

Não era ilegal matar algo que fosse de sua posse. Mas era considerado grosseiro o bastante chamar atenção para o fato.

Porém, Blaine viu como Dronyen olhava para Kurt. E ele sabia que Dronyen havia visto alguma coisa nele que Blaine também viu. Dronyen não viu apenas um prazeroso modo de passar o tempo, ele viu ferocidade no olhar do sidhe. O orgulho. A força. A firme recusa em quebrar.

Dronyen era um verdadeiro sadista. Isso Blaine sabia.

Muitos aristocratas iriam ficar chocados ao ouvir que o que eles faziam a seus sidhes era descrito como estupro. Seus escravos estavam lá simplesmente para lhes dar prazer econsentimento era um conceito estranho nessa situação. Claro que isso era cruel, mas a maioria desses homens era genuinamente ignorante sobre sua própria crueldade. Alguns deles provavelmente até se convenceram que suas vítimas gostavam da atenção.

Mas Dronyen? Dronyen provavelmente iria amar pensar nisso como estupro. Isso provavelmente faria seu dia.

Ele gostava de fazê-los sofrer. Ele gostava de quebrar seus escravos.

E a extensão das contusões em Kurt naquela primeira noite? Sugeria um nível exagerado de entusiástica brutalidade, até mesmo para Dronyen.

Então era possível que Dronyen pudesse persegui-los insistentemente. Era possível que ele percebesse quão precioso e único Kurt era, mesmo que fosse as mais horríveis e erradas razões imagináveis.

E ainda tinha o Blaine. Dronyen provavelmente devia estar tremendo de raiva diante da traição e audácia. Um simples camponês bolsista, lhe dado uma posição de prestígio na corte, como futuro mão direita do príncipe. E é assim que o agradece.

Dronyen provavelmente o usaria como exemplo. Se Dronyen ou um de seus homens o encontrasse, ele seria morto. Simples e rápido.

Ou talvez não tão simples. Sem dúvida Dronyen preferiria assassiná-lo lentamente e do jeito mais complicado possível.

Ele seria torturado publicamente, e Blaine não ficaria surpreso se isso durasse por semanas. Ele soube disso desde o começo, desde que ele decidiu libertar Kurt.

Blaine só pedia aos Deuses uma coisa: que eles não fossem pegos antes que a verbena saísse do organismo do sidhe. Porque mesmo que eles fossem pegos e Blaine morto, mesmo que quebrassem sua mente, corpo e alma em um milhão de pedaços, eles não seriam capazes nem de tocar Kurt totalmente recuperado. Eles não conseguiriam nem chegar perto.

Blaine cavalgou até não conseguir manter os olhos abertos, até que seus músculos tensos estivessem doendo tanto que pareciam que iam cair. Ele seguiu o caminho que tinha planejado que os levaria até uma rota que Blaine esperava que não atraísse os guardas de Dronyen.

Quando ele decidiu que tinham chegado longe o bastante, que não tinha como ele ou os cavalos aguentarem mais, ele os guiou para fora da desgastada estrada que vinham seguindo pelas últimas horas, adentrando a floresta. Encontrando uma clareira adequada, ele desceu da carruagem, e desabou tão logo seus pés tocaram o chão.

Ele se permitiu simplesmente deitar desse jeito mesmo. E tinha certeza que tinha até cochilado um pouco. Sons e imagens passavam pelo canto de seus olhos quando consciente, e ele não sentia seu corpo, o que nesse momento era uma benção.

Após um ligeiramente indeterminado período de tempo (Uma hora? Duas? Cinco?) ele se levantou, sentindo sua cabeça explodir com a pressão de tudo que ele tinha que fazer.

O que ele viu deixou-o chocado.

O dia estava claro, os cavalos pastando e bebendo de um córrego a beira da clareira que Blaine não tinha nem percebido antes. A tenda que ele tinha guardado estava montada perfeitamente entre duas árvores, e esse quente, amadeirado cheiro não era apenas parte de um sonho estranhamente vívido, porque Kurt havia feito uma fogueira. O elfo estava sobre um caldeirão que estava fervendo e expelia um delicioso aroma.

E – era isso mesmo? – Sim. Blaine estava envolto num cobertor.

Ele se levantou lentamente, tentando sua habilidade para se mover. Ao gemer tentando se alongar, Kurt se virou para encará-lo.

Havia uma suavidade em seu olhar não Blaine não tinha visto antes. Isso fez com que prendesse sua respiração e o mundo girar ao seu redor por um momento.

– Oi. – Blaine cumprimentou sorrindo enormemente.

– Oi. – Kurt não correspondeu seu sorriso, mas a suavidade continuou. No entanto Blaine conseguiu alcançá-lo, nem que fosse um pouco.

– Você- você não precisava fazer tudo isso. Eu ia-

– Deitar e morrer? Sim, você ia. Eu não consigo acreditar que você fez os cavalos se esforçarem tanto. Eles estavam ligeiramente melhor que você. Coitados.

Blaine suspirou. – Eu tinha que nos levar o mais longe possível.

– Eu entendo. Mas Blaine, podemos ficar aqui pelo menos até amanhã? Os cavalos precisam descansar. Você precisa descansar. Você não é útil para mim se nem ao menos consegue ficar em pé.

Blaine tentou controlar sua alegria, apenas sorrir. Kurt ainda parecia desconfiado e tenso e com certeza não tinha confiança no moreno de cabelo cacheado, mas ele ainda disse...

– Então você planeja ficar comigo?

Kurt voltou sua atenção para o caldeirão rapidamente. – Sim, por enquanto, se sua oferta ainda está de pé. Você está certo sobre a verbena. Tão fraco como estou agora, eu não duraria nem uma semana sozinho. Seria pego e vendido novamente, e o próximo poderia ser até pior que Dronyen.

Blaine sentiu seu corpo retesar de ódio. – Eu não acho isso possível. – ele respondeu.

Kurt ficou em silêncio por um momento.

– Bem, mesmo assim. Eu acredito que já tive o bastante sendo tratado como propriedade dos homens humanos.

Blaine não conseguiu segurar as lágrimas, então ele nem tentou. – Sinto muito, Kurt. – ele disse quebradamente.

Kurt voltou a encará-lo. Acenou com a cabeça e voltou sua atenção ao caldeirão.

Kurt fez um ensopado incrível de ervas secas que Blaine tinha empacotado, como também uma variedade de vegetais e raízes que encontrou na floresta enquanto Blaine dormia.

Estava delicioso, mas...

– Por que você não usou nada da carne seca ou peixe que eu trouxe? Tem o bastante.

Kurt encarou sua tigela por um momento, parecendo quase temeroso, como se esperasse levar um tapa.

– Não... Eu não quis... Está ótimo do jeito que está. Eu só queria ter certeza que você sabia que pode usar o que quiser. Sirva-se. Tudo isso é tão meu quanto seu.

Kurt o olhou de relance hesitantemente. – Tudo bem. Obrigado Blaine, mas eu prefiro não comer carne de animais.

Blaine olhou surpreso. – Oh. Mas você sempre...

– Eu sempre comi porque era preciso para eu continuar vivo. Eu fiz muitas coisas que não gosto para continuar vivo. Mas meu corpo não digere carne bem, e para se honesto, me dói o coração comer isso. Então se está tudo bem, eu continuarei a não comer.

– Claro que está tudo bem. Eu apenas... Não sabia. Eu espero que tenha trazido o bastante de outras coisas.

Kurt sorriu. – Eu sou muito bom em encontrar plantas, e há muitas coisas que eu posso comer e você não, então apenas fique com a carne para você e estaremos bem.

– O que você come normalmente? – Blaine perguntou interessado. – Quando você era- Antes de você ser-

– Escravizado?

– Sim.

Kurt deu de ombros. – Geralmente folhas e flores. Raízes e grama, frutas ocasionalmente. Por exemplo, isso – Kurt arrancou uma folha de um arbusto do lado – é bom o bastante para mim. – ele colocou a folha em sua boca e comeu com gosto.

Blaine sorriu. – Qual é sua comida favorita?

– Madressilva.

Blaine quase bateu palmas de alegria. – Eu sabia! Minha avó – ela me disse que sidhes amam madressilva. Nós deixávamos cestas cheias na varanda para que abençoassem nossa casa.

Kurt o olhou intrigado. – Da onde você é?

– N'auri. É uma região pequena, divisa com Villalu do Norte, perto do Mar do Leste.

Kurt assentiu. – Já ouvi sobre esse lugar. Há algumas feririars nômades nessa área. Não é bem um ambiente de comércio de escravos pelo que eu sei.

– Não mesmo. Eu nem sabia sobre escravização de sidhes até os doze anos. O primeiro sidhe que eu vi era livre.

Kurt sorriu ao ouvir isso. E o coração do moreno pulou ao ver isso.

– Ele era belo...

Blaine tentou parar ai. Ele tentou. Realmente tentou. Mas não conseguiu.

– ... Como você.

Foi como se portões de ferro se fechassem por trás do olhar do sidhe, o encarando tenso. A suavidade sumira. Aquele sorriso que Blaine finalmente tinha conseguido do sidhe desaparecera sem deixar rastros. Kurt abraçou-se defensivamente e cerrou a mandíbula, desviando o olhar longe de Blaine.

Blaine engoliu em seco. – Sinto muito Kurt, eu não devia-

– O que você quer de mim, Blaine? Seja sincero, por favor.

– Eu apenas quero ajudar-

– Para. – Kurt voltou seu olhar brilhante e feroz a Blaine. – Eu não quero ouvir sobre como você quer me ajudar, nem como você quer ser uma boa pessoa, ou como isso é um jeito distorcido para você alcançar redenção. Eu quero que você me diga porque você está fazendo isso, e eu quero que você me diga agora mesmo.

Blaine encarou esse olhar brilhante azul e sentiu a ordem o afetar profundamente. Ele literalmente sentiu Kurt ler a verdade em seus olhos.

– Porque eu estou apaixonado por você.

Kurt arregalou os olhos, horrorizado. – Oh Deuses. – ele gemeu.

– Me desculpe! Eu só... É verdade Kurt. Desde a primeira vez que te vi, eu...

– Isso não é verdade.

– É sim! Kurt, eu-

– Você não me ama, Blaine. – ele cuspiu, apertando o abraço a si mesmo. – Você fantasia comigo. Você ama a idéia de me amar. Você mal me conhece. Me vê apenas como uma criatura frágil e delicada que precisa da sua ajuda e então o quê? Você espera que eu me dê a você? E isso é diferente do que Dronyen me comprando e me usando como uma possessão porque você conseguiu romantizar isso? Para fazê-lo parecer o nobre herói no meio de tudo isso?

– Não, Kurt! Isso não é-

– Tudo bem. – Kurt disse, sua voz adquirindo um tom perigosamente meloso, olhar brilhando com malícia. – Porque eu não sou uma criatura frágil e delicada. Como eu disse antes, eu faço o que é preciso para sobreviver. E isso não é nada novo. Eu entendo. Você está fazendo algo para mim, então eu devo te dar algo de volta.

Ele engatinhou até o outro, subindo em seu colo. Blaine estava congelado pelo choque.

– Então você é do tipo romântico. Como é que vai ser? Beijos e sussurros insignificantes a luz da lua? Fazer amor, lentamente e gentilmente, olhando um para o outro? – Kurt ronronou.

Ele se inclinou e beijou Blaine nos lábios. E o ato arrancou Blaine de seu choque e o jogou de volta em se corpo, acordando-o para o presente, para o que estava acontecendo no momento.

Com um salto Blaine ficou de pé, derrubando Kurt no chão. Tocando seus lábios, assustado pela confusão que o afligia.

Sentir os lábios do sidhe tinha sido maravilhoso... Mas a situação era tão, mas tão errada.

– Não. – Blaine sussurrou com voz trêmula, olhando para Kurt.
– Eu não quero isso,Kurt. Simplesmente não.

Olhando nos olhos do outro, uma tempestade de intensas emoções explodindo em seus olhos azuis.

– Então o quê você quer de mim? – lamentou, desabando em lágrimas.

A intensidade de seu colapso superou aqueles soluços angustiantes que Blaine se lembrava da primeira noite do sidhe no castelo de Dronyen. Kurt segurou seu rosto nas mãos e apoiou os cotovelos nos joelhos. Blaine se agachou e bem, bem lentamente tocou o ombro do outro cautelosamente. Quando Kurt repeliu o toque, ele retirou sua mão rapidamente.

Então Blaine apenas se sentou do seu lado e esperou.

Kurt chorou por um longo, longo tempo. Havia raiva, e dor, mas principalmente havia um medo profundo em seus soluços.

Blaine queria tanto abraçá-lo.

Quando finalmente as lágrimas começaram a diminuir, com o olhar lacrimejante Kurt encarou o outro, a pergunta ainda pairando entre eles.

– Eu não sei o que dizer Kurt. – Blaine suspirou. – Talvez o que estou sentindo não é verdadeiro, eu não sei, mas eu acredito que é. E o que eu quero é que você seja livre e feliz, mesmo que eu tenha que morrer para fazer isso acontecer. E o que eu não quero é que você me beije, ou... Ou me toque de qualquer maneira, a não ser que seja algo que você queira. Não porque você me deve ou porque eu espero que isso aconteça, mas porque você quer isso. E mesmo que você nunca queira isso... Tudo bem, também.

Kurt apoiou o queixo em seus joelhos, sentindo-se miserável.
– Eu não sei se consigo acreditar em você. – ele disse.

Blaine deu de ombros. – Talvez eu ainda não tenha feito por merecer. Espero que eventualmente isso aconteça. – E sorriu para Kurt. Era um sorriso cauteloso. Blaine tentava transmitir carinho sem expectações e não tinha certeza se tinha conseguido.

Para sua surpresa, Kurt sorriu de volta. E Blaine sentiu-se aquecer por dentro.

– Eu espero também. – Kurt respondeu suavemente.

Eles dormiram em lados opostos da tenda.

Blaine caiu num sono leve, e encontrou-se olhando para Kurt nos intervalos de seu sono. Era difícil vê-lo na escuridão da tenda, mas Blaine conseguia fazer os contornos do corpo do outro, os subir e descer de seu peito. Conseguia ouvir a quase musical respiração suave, e o conforto que isso lhe dava era esmagador.

E não percebera que não era o único de olhos aberto na tenda essa noite.

Não vira o elfo olhá-lo de relance de vez enquanto, quando sua respiração estabilizava pelo sono, nem vira o outro homem traçar as curvas de seu corpo, do ombro ao quadril, com seus olhos.

Ele não viu Kurt caindo no sono com um sorriso nos lábios quando finalmente, depois de encará-lo por tanto tempo, que não conseguia manter mais os olhos abertos.

E ele não percebeu que, pela primeira vez em muitos, muitos anos, Kurt finalmente dormia sem medo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário