terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Capítulo 1 - The Sidhe





Blaine nunca se importou particularmente com os mercados de carne.

Ele supôs que já era imune a isso nesse ponto, mas isso continuava a parecer errado. Quando era mais novo em N'auri, sua avó havia ensinado-lhe que os sidhes eram pessoas nobres e poderosas que deviam ser respeitadas e levemente temidas. Eles eram belos e mágicos, e a visão de um traria boa sorte até a próxima lua.

Blaine sempre esteve encantando pelos sidhes. A primeira vez que ele realmente viu um foi quando tinha doze anos. Um ser glorioso e esbelto saía do rio, que ficava perto do chalé onde Blaine morava, e adentrava a floresta, completamente nu, rindo como música.

Esse também foi o momento exato no qual Blaine descobriu que ele gostava de garotos.

A segunda vez que ele viu um sidhe deixou-o confuso. Ele estava no mercado com sua mãe e viu o que inequivocamente era um dos belos elfos. Dessa vez era um do sexo feminino, e sua beleza tinha sido mitigada por um folgado vestido de juta, cabelo seco e olhos sem vida. Usando uma coleira de ferro, seguia quietamente uma mulher de aparência arrogante.

– Mãe, o que... Ela é um Sidhe, não é?

– Sim. – sua mãe respondeu tensamente. Blaine podia ver que a visão a perturbava.



– O que... Por que ela está assim? O que tem de errado com ela?

Sua mãe parou e virou para encará-lo.

– Ela é uma escrava, Blaine. – ela respondeu suavemente.

Blaine encarou-a em estado de choque silenciosamente. Ele nem sabia por onde começar.

Nas próximas semanas, Blaine conseguiu extrair mais detalhes de sua mãe, quem parecia hesitante em vocalizar esse horrível conhecimento ao seu filho.

Ele aprender que, apesar dos sidhes serem naturalmente poderosos, eles vinham sendo capturados e comercializados como escravos por muitos e muitos anos em Villalu. Seus poderes eram suprimidos com coleiras de ferro ou por injeções de tintura de verbena. Blaine nunca tinha visto um escravo Sidhe antes porque a região onde ele morava era muito pobre, e apenas os muito ricos tinham como pagar por um Sidhe. Sidhes eram difíceis de encontrar e difíceis de capturar.

Porém havia muita coisa que sua mãe não lhe tinha dito.

Ela nunca lhe contou sobre os mercados de carne. Ela nunca lhe disse o que exatamente acontecia com esses sidhes nas mãos desses cultos, aristocráticos homens de olhar gélido e áspero.

Não foi até que ganhou uma bolsa de estudos na Academia de Villalu Proper que ele começou a ouvir sussurros sobre isso. E o que ele não ouviu ele deduziu quando seu próprio desenvolvimento sexual começou a revelar verdades da sociedade escondidas anteriormente.

Relações sexuais entre homens eram tabu oficial tanto em Villalu Proper como em N'auri, apesar de que aqui essa posição oficial era acompanhada por um aceno e uma piscadela. Blaine não teve problema encontrando parceiros dispostos na academia, e ele nunca realmente temeu ser pego. Esses garotos que eram pegos, geralmente eram repreendidos por olhos risonhos, que diziam para tirarem isso agora de seus sistemas enquanto podiam e que fossem mais discretos futuramente.

No entanto, com os Sidhes era um caso totalmente diferente.

Geralmente entre os bem abastados e particularmente na realeza, era comum e consentida a compra de sidhes para uso sexual. O gênero do sidhe era socialmente irrelevante. Os elfos não eram humanos, então nada que era feito com eles tinha muita importância. Metade dos homens abastados casados em Villallu Proper parecia ter seu próprio sidhe, e um homem usando seu sidhe para prazer não era considerado mais escandaloso do que usando seu cavalo para transporte.

No começo isso enojou Blaine.

Isso ainda o enoja, ele supôs, mas ele foi mais ou menos forçado a aceitar isso como uma realidade da sociedade.

Muitos de seus colegas tinham ganhado a oportunidade de usar os sidhes de seus pais quando completavam dezesseis anos, a tradicional entrada na maturidade viril. Alguns desses garotos abastado até ganharam um sidhe próprio. E o propósito de todo o trabalho de Blaine na academia era ganhar a posição de cortesão em uma das cortes reais, onde a presença de escravos sidhes era totalmente onipresente.

Blaine talvez se tornou ligeiramente insensível a isso. No entanto, as vezes ele era atacado de surpresa pela visão de um dos orgulhosos elfos com o olhar derrotado, mancando e o que era antes uma pele luminosa, agora estava marcada por contusões.



Às vezes ele ainda deixava cair lágrimas silenciosas sobre seu travesseiro a noite, embaraçado por sua própria incredulidade infantil sobre a crueldade do mundo.

Claro que o mundo era cruel. Blaine sabia disso há muito tempo. Ele soube disso quando sua avó tinha sido assassinada em sua cama durante um dos vários ataques que sua aldeia sofreu.

Ele soube disso quando sua mãe passou o dia após um desses ataques mancando e soluçando deitada em posição fetal enquanto Blaine trazia trapos limpos para ela se deitar, trocando os encharcados de sangue os quais ele lavaria no rio.

Ele soube disso quando, nove meses depois, sua mãe deu a luz a um menino que não tinha como ser filho do seu pai, o qual um mês depois fugiu com uma garçonete.

Sua mãe o fez competir pela bolsa de estudos na academia menos pelo potencial que ela viu nele e mais porque ela simplesmente não tinha como alimentar Blaine e seu irmão.

Quando ele deixou sua casa, o olhar de sua mãe estranhamente o fez lembrar daquele primeiro escravo sidhe que ele viu no mercado há tantos anos atrás.

Mesmo assim, toda essa dor não o tinha preparado para isso.

Agora completa quase um ano que Blaine tem estado trabalhando para o príncipe Dronyen e ele já foi selecionado para acompanhar o príncipe aos mercados de carne para selecionar um novo "brinquedo".

Dronyen parecia quebrar seus "brinquedos" muito rápido.

Blaine o odiava.

Mas apenas um pouquinho mais do quanto odiava a si mesmo.



Dronyen bocejou largamente para si mesmo enquanto o próximo sidhe era guiado para a plataforma em frente deles, esse sendo fêmea.

– Sinceramente, esse é o pior lote que já vi. – Dronyen disse arrastando. – Se eu não encontrar algo novo hoje, terei que ir com o que tem e usar Brissa hoje a noite. E isso seria depressivo demais.

Brissa era esposa de Dronyen.

Blaine estava tentando não olhar para o palco. Ele estava tentando não ver os lampejos de raiva enterrados em olhares derrotados, enquanto um ser magnífico depois do outro era oferecido a um destino de abuso e degradação.

Mas então um flash de azul chamou sua atenção e, instintivamente, ele se virou.

E o mundo parou.

Porque na plataforma em sua frente estava a criatura mais deslumbrante que ele já tinha posto os olhos em toda sua vida.

O sidhe era flexível e ágil, como todos os sidhes tendiam a ser, com uma pele de um tom pálido, que brilhava como se a lua a iluminasse, que cobria uma sutil musculatura tensa.

E ele era impressionante, da cabeça aos pés.

Seu cabelo era de um castanho brilhante, e ia até um pouco abaixo das orelhas. Seus lábios eram rosados e delicados, e seus olhos...

Seus olhos!

Não eram apenas porque tinham a mais incrível cor imaginável – um azul suave, vívido entrelaçado tons de um mar verde.



E não era apenas porque eles eram grandes e amendoados, cercado por um leque de cílios âmbares.

Era porque eles estavam cheios e transbordando vida.

Blaine nunca tinha visto um escravo sidhe de olhar tão vivo e expressivo. Seu olhar não era nada estólido ou derrotado. Cauteloso, sim, e totalmente desconfiado, mas também resplandecente.

Resplandecente como aquele sidhe que deslizava pelo rio quando Blaine tinha doze anos. O único sidhe livre que Blaine teve a oportunidade de presenciar.

O elfo se posicionou sobre a plataforma como se a possuísse, como se estivesse lá para julgá-los, e não o contrário.

Ele acomodou uma mecha atrás de uma delicada orelha pontuda, seu queixo apontado para cima revelando uma mandíbula definida que contratava suas características suaves belamente.

E mesmo sabendo que isso era uma insanidade, Blaine tinha certeza que estava apaixonado.

Ele também sabia, sem sombra de dúvida, que Dronyen iria comprar esse elfo.

Mesmo assim ele não estava preparado para a dor que comprimiu seu coração quando Dronyen pulou de seu assento, olhar aceso por uma cega e desmascarada fome, para fazer sua oferta.

As ofertas eram altas. Blaine não estava surpreso – se ele nunca viu ninguém tão belo, ele tinha certeza que nenhum desses homens tinham visto também.

Quando os interessados tinham sido reduzidos a três, como a tradição manda, eles tinham permissão para tocar antes de finalizar suas ofertas. Blaine sentiu um onda de ira o atravessar ao ver como essas mãos intrusivas apalpavam desrespeitosamente a pele perfeita do sidhe, inspecionando o interior de sua boca, dedos dos pés, suas nádegas.

E o olhar do elfo enquanto eles o submetiam a isso era angustiante.

Porque essa era a primeira vez que Blaine viu o medo. Era cru e totalmente a vista, e isso o rasgava por dentro instruindo o desejo de pular na plataforma e se jogar na frente desse ser perfeito, o separando desses porcos repulsivos que se achavam merecedores de tocá-lo.

Blaine sentiu-se morrer por dentro quando a oferta de Dronyen saiu vencedora.

Blaine andava atrás do príncipe Dronyen na viagem de volta pra casa, dividido por uma profunda aflição e uma fervente fúria. O elfo andava com Dronyen, rente à frente do corpo do príncipe. O sidhe vestia um simples par de calças, um gibão e sandálias de couro. Blaine estava agradecido que pelos menos o concederam a temporária dignidade que as roupas ofereciam.

Essa noite foi uma das piores de toda sua vida, junto com o assassinado de sua avó e o estupro de sua mãe. Ele podia ouvir o quanto Dronyen estava se divertindo com sua nova propriedade, e Blaine tinha certeza que ouvira mais que uma lamúria de dor vindo dos aposentos do príncipe também, e Blaine simplesmente enterrou seu rosto em suas mãos e chorou.

Ele disse a si mesmo que não iria fazer isso. Ele jurou que não ia. Mas mesmo que sua mente negasse, seu corpo moveu silenciosamente pelo castelo, desviando guardas e deslizando pelos cantos até chegar ao corredor que ia até a cela do sidhe.



Não havia guardas. Por que haveria? As veias do elfo deviam de estar transbordam com verbena, anulando efetivamente qualquer ameaça que ele poderia ser no seu estado natural.

Muito menos nesse estado.

Ele estava encolhido num canto junto as paredes de pedra, a luz da lua passando por entre as barras da janela e iluminando sua pálida, brilhante pele, agora púrpura por hematomas.

O elfo estava com a cabeça entre os joelhos, e estava soluçando. Soluçando. Blaine nunca tinha ouvido um som tão puro, musical e torturado. De algum modo isso era horrivelmente belo, e totalmente angustiante.

Só foi por sua reação a esse som, que Blaine percebeu que, talvez, apesar do que ele se tornou e o que ele se permitiu acostumar, talvez ele ainda tivesse sua alma.

E Dronyen? Dronyen não tinha alma. Isso Blaine tinha certeza. Dronyen conseguia ouvir esses soluços e continuar sua vida como se nada. Ele conseguia usar esse ser etéreo como se usa um pedaço de carne, e joga-lo, nu e abatido, numa fria cela de pedra depois de tudo. Ele conseguia sentir prazer no ato de tentar quebrar algo tão belo.

Mas Blaine não iria deixar essa criatura – esse sidhe – esse homem tão belo ser quebrado. Ele não tinha certeza de como nem do o que ele iria fazer, mas tinha que acontecer logo. Se tivesse algum jeito de Blaine resgatá-lo ainda essa noite – antes que Dronyen pusesse suas mãos nele de novo – ele o faria, mas ele sabia que não tinha como. Isso não faria bem algum para nenhum dos dois se Blaine fosse executado por tentar libertar o elfo, já que ele tinha certeza que ninguém se importava o bastante para tentar.

Mas isso aconteceria logo. Porque se tinha a menor chance de Dronyen conseguir apagar o brilho nesses olhos possuidores das cores do oceano, Blaine nunca se perdoaria.


Nunca.

Ao cair da noite, deitado em sua cama, Blaine se retorcia e sussurrava febrilmente para si mesmo, esperando que ele conseguisse de algum jeito fazer-se ouvir pelo belo sidhe escravizado três andares abaixo.

– Eu te amo. – ele sussurrou.

– Eu vou te salvar.

– Sinto muito.


– Sinto muito, sinto tanto.



Nenhum comentário:

Postar um comentário