Blaine
nunca se importou particularmente com os mercados de carne.
Ele
supôs que já era imune a isso nesse ponto, mas isso continuava a parecer
errado. Quando era mais novo em N'auri, sua avó havia ensinado-lhe que os
sidhes eram pessoas nobres e poderosas que deviam ser respeitadas e levemente
temidas. Eles eram belos e mágicos, e a visão de um traria boa sorte até a
próxima lua.
Blaine
sempre esteve encantando pelos sidhes. A primeira vez que ele realmente viu um
foi quando tinha doze anos. Um ser glorioso e esbelto saía do rio, que ficava
perto do chalé onde Blaine morava, e adentrava a floresta, completamente nu,
rindo como música.
Esse
também foi o momento exato no qual Blaine descobriu que ele gostava de garotos.
A
segunda vez que ele viu um sidhe deixou-o confuso. Ele estava no mercado com
sua mãe e viu o que inequivocamente era um dos belos elfos. Dessa vez era um do
sexo feminino, e sua beleza tinha sido mitigada por um folgado vestido de juta,
cabelo seco e olhos sem vida. Usando uma coleira de ferro, seguia quietamente
uma mulher de aparência arrogante.
– Mãe,
o que... Ela é um Sidhe, não é?
– Sim.
– sua mãe respondeu tensamente. Blaine podia ver que a visão a perturbava.
– O
que... Por que ela está assim? O que tem de errado com ela?
Sua mãe
parou e virou para encará-lo.
– Ela é
uma escrava, Blaine. – ela respondeu suavemente.
Blaine
encarou-a em estado de choque silenciosamente. Ele nem sabia por onde começar.
Nas
próximas semanas, Blaine conseguiu extrair mais detalhes de sua mãe, quem
parecia hesitante em vocalizar esse horrível conhecimento ao seu filho.
Ele
aprender que, apesar dos sidhes serem naturalmente poderosos, eles vinham sendo
capturados e comercializados como escravos por muitos e muitos anos em Villalu.
Seus poderes eram suprimidos com coleiras de ferro ou por injeções de tintura
de verbena. Blaine nunca tinha visto um escravo Sidhe antes porque a região
onde ele morava era muito pobre, e apenas os muito ricos tinham como pagar por
um Sidhe. Sidhes eram difíceis de encontrar e difíceis de capturar.
Porém
havia muita coisa que sua mãe não lhe tinha dito.
Ela
nunca lhe contou sobre os mercados de carne. Ela nunca lhe disse o que
exatamente acontecia com esses sidhes nas mãos desses cultos, aristocráticos
homens de olhar gélido e áspero.
Não foi
até que ganhou uma bolsa de estudos na Academia de Villalu Proper que ele
começou a ouvir sussurros sobre isso. E o que ele não ouviu ele deduziu quando
seu próprio desenvolvimento sexual começou a revelar verdades da sociedade
escondidas anteriormente.
Relações
sexuais entre homens eram tabu oficial tanto em Villalu Proper como em N'auri,
apesar de que aqui essa posição
oficial era acompanhada por um aceno e uma piscadela. Blaine não teve problema
encontrando parceiros dispostos na academia, e ele nunca realmente temeu ser
pego. Esses garotos que eram pegos, geralmente eram repreendidos por olhos
risonhos, que diziam para tirarem isso agora de seus sistemas enquanto podiam e
que fossem mais discretos futuramente.
No
entanto, com os Sidhes era um caso totalmente diferente.
Geralmente
entre os bem abastados e particularmente na realeza, era comum e consentida a
compra de sidhes para uso sexual. O gênero do sidhe era socialmente
irrelevante. Os elfos não eram humanos, então nada que era feito com eles tinha
muita importância. Metade dos homens abastados casados em Villallu Proper
parecia ter seu próprio sidhe, e um homem usando seu sidhe para prazer não era
considerado mais escandaloso do que usando seu cavalo para transporte.
No
começo isso enojou Blaine.
Isso
ainda o enoja, ele supôs, mas ele foi mais ou menos forçado a aceitar isso como
uma realidade da sociedade.
Muitos
de seus colegas tinham ganhado a oportunidade de usar os sidhes de seus pais
quando completavam dezesseis anos, a tradicional entrada na maturidade viril.
Alguns desses garotos abastado até ganharam um sidhe próprio. E o propósito de
todo o trabalho de Blaine na academia era ganhar a posição de cortesão em uma
das cortes reais, onde a presença de escravos sidhes era totalmente
onipresente.
Blaine
talvez se tornou ligeiramente insensível a isso. No entanto, as vezes ele era
atacado de surpresa pela visão de um dos orgulhosos elfos com o olhar
derrotado, mancando e o que era antes uma pele luminosa, agora estava marcada
por contusões.
Às
vezes ele ainda deixava cair lágrimas silenciosas sobre seu travesseiro a
noite, embaraçado por sua própria incredulidade infantil sobre a crueldade do
mundo.
Claro
que o mundo era cruel. Blaine sabia disso há muito tempo. Ele soube disso
quando sua avó tinha sido assassinada em sua cama durante um dos vários ataques
que sua aldeia sofreu.
Ele
soube disso quando sua mãe passou o dia após um desses ataques mancando e
soluçando deitada em posição fetal enquanto Blaine trazia trapos limpos para
ela se deitar, trocando os encharcados de sangue os quais ele lavaria no rio.
Ele
soube disso quando, nove meses depois, sua mãe deu a luz a um menino que não
tinha como ser filho do seu pai, o qual um mês depois fugiu com uma garçonete.
Sua mãe
o fez competir pela bolsa de estudos na academia menos pelo potencial que ela
viu nele e mais porque ela simplesmente não tinha como alimentar Blaine e seu
irmão.
Quando
ele deixou sua casa, o olhar de sua mãe estranhamente o fez lembrar daquele
primeiro escravo sidhe que ele viu no mercado há tantos anos atrás.
Mesmo
assim, toda essa dor não o tinha preparado para isso.
Agora
completa quase um ano que Blaine tem estado trabalhando para o príncipe Dronyen
e ele já foi selecionado para acompanhar o príncipe aos mercados de carne para
selecionar um novo "brinquedo".
Dronyen
parecia quebrar seus "brinquedos" muito rápido.
Blaine
o odiava.
Mas
apenas um pouquinho mais do quanto odiava a si mesmo.
Dronyen
bocejou largamente para si mesmo enquanto o próximo sidhe era guiado para a
plataforma em frente deles, esse sendo fêmea.
–
Sinceramente, esse é o pior lote que já vi. – Dronyen disse arrastando. – Se eu
não encontrar algo novo hoje, terei que ir com o que tem e usar Brissa hoje a
noite. E isso seria depressivo demais.
Brissa
era esposa de Dronyen.
Blaine
estava tentando não olhar para o palco. Ele estava tentando não ver os lampejos
de raiva enterrados em olhares derrotados, enquanto um ser magnífico depois do
outro era oferecido a um destino de abuso e degradação.
Mas
então um flash de azul chamou sua atenção e, instintivamente, ele se virou.
E o
mundo parou.
Porque
na plataforma em sua frente estava a criatura mais deslumbrante que ele já
tinha posto os olhos em toda sua vida.
O sidhe
era flexível e ágil, como todos os sidhes tendiam a ser, com uma pele de um tom
pálido, que brilhava como se a lua a iluminasse, que cobria uma sutil
musculatura tensa.
E ele
era impressionante, da cabeça aos pés.
Seu
cabelo era de um castanho brilhante, e ia até um pouco abaixo das orelhas. Seus
lábios eram rosados e delicados, e seus olhos...
Seus
olhos!
Não
eram apenas porque tinham a mais incrível cor imaginável – um azul suave,
vívido entrelaçado tons de um mar verde.
E não
era apenas porque eles eram grandes e amendoados, cercado por um leque de
cílios âmbares.
Era
porque eles estavam cheios e transbordando vida.
Blaine
nunca tinha visto um escravo sidhe de olhar tão vivo e expressivo. Seu olhar
não era nada estólido ou derrotado. Cauteloso, sim, e totalmente desconfiado,
mas também resplandecente.
Resplandecente
como aquele sidhe que deslizava pelo rio quando Blaine tinha doze anos. O único
sidhe livre que Blaine teve a oportunidade de presenciar.
O elfo
se posicionou sobre a plataforma como se a possuísse, como se estivesse lá para
julgá-los, e não o contrário.
Ele
acomodou uma mecha atrás de uma delicada orelha pontuda, seu queixo apontado
para cima revelando uma mandíbula definida que contratava suas características
suaves belamente.
E mesmo
sabendo que isso era uma insanidade, Blaine tinha certeza que estava
apaixonado.
Ele
também sabia, sem sombra de dúvida, que Dronyen iria comprar esse elfo.
Mesmo
assim ele não estava preparado para a dor que comprimiu seu coração quando
Dronyen pulou de seu assento, olhar aceso por uma cega e desmascarada fome,
para fazer sua oferta.
As
ofertas eram altas. Blaine não estava surpreso – se ele nunca viu ninguém tão
belo, ele tinha certeza que nenhum desses homens tinham visto também.
Quando
os interessados tinham sido reduzidos a três, como a tradição manda, eles
tinham permissão para tocar antes de finalizar
suas ofertas. Blaine sentiu um onda de ira o atravessar ao ver como essas mãos
intrusivas apalpavam desrespeitosamente a pele perfeita do sidhe, inspecionando
o interior de sua boca, dedos dos pés, suas nádegas.
E o
olhar do elfo enquanto eles o submetiam a isso era angustiante.
Porque
essa era a primeira vez que Blaine viu o medo. Era cru e totalmente a vista, e
isso o rasgava por dentro instruindo o desejo de pular na plataforma e se jogar
na frente desse ser perfeito, o separando desses porcos repulsivos que se
achavam merecedores de tocá-lo.
Blaine
sentiu-se morrer por dentro quando a oferta de Dronyen saiu vencedora.
Blaine
andava atrás do príncipe Dronyen na viagem de volta pra casa, dividido por uma
profunda aflição e uma fervente fúria. O elfo andava com Dronyen, rente à
frente do corpo do príncipe. O sidhe vestia um simples par de calças, um gibão
e sandálias de couro. Blaine estava agradecido que pelos menos o concederam a
temporária dignidade que as roupas ofereciam.
Essa
noite foi uma das piores de toda sua vida, junto com o assassinado de sua avó e
o estupro de sua mãe. Ele podia ouvir o quanto Dronyen estava se divertindo com
sua nova propriedade, e Blaine tinha certeza que ouvira mais que uma lamúria de
dor vindo dos aposentos do príncipe também, e Blaine simplesmente enterrou seu
rosto em suas mãos e chorou.
Ele
disse a si mesmo que não iria fazer isso. Ele jurou que não ia. Mas mesmo que
sua mente negasse, seu corpo moveu silenciosamente pelo castelo, desviando
guardas e deslizando pelos cantos até chegar ao corredor que ia até a cela do
sidhe.
Não
havia guardas. Por que haveria? As veias do elfo deviam de estar transbordam
com verbena, anulando efetivamente qualquer ameaça que ele poderia ser no seu
estado natural.
Muito
menos nesse estado.
Ele
estava encolhido num canto junto as paredes de pedra, a luz da lua passando por
entre as barras da janela e iluminando sua pálida, brilhante pele, agora
púrpura por hematomas.
O elfo
estava com a cabeça entre os joelhos, e estava soluçando. Soluçando.
Blaine nunca tinha ouvido um som tão puro, musical e torturado. De algum modo
isso era horrivelmente belo, e totalmente angustiante.
Só foi
por sua reação a esse som, que Blaine percebeu que, talvez, apesar do que ele
se tornou e o que ele se permitiu acostumar, talvez ele ainda tivesse sua alma.
E
Dronyen? Dronyen não tinha alma. Isso Blaine tinha certeza. Dronyen conseguia
ouvir esses soluços e continuar sua vida como se nada. Ele conseguia usar esse
ser etéreo como se usa um pedaço de carne, e joga-lo, nu e abatido, numa fria
cela de pedra depois de tudo. Ele conseguia sentir prazer no ato de tentar
quebrar algo tão belo.
Mas
Blaine não iria deixar essa criatura – esse sidhe – esse homem tão belo
ser quebrado. Ele não tinha certeza de como nem do o que ele iria fazer, mas
tinha que acontecer logo. Se tivesse algum jeito de Blaine resgatá-lo ainda
essa noite – antes que Dronyen pusesse suas mãos nele de novo – ele o faria,
mas ele sabia que não tinha como. Isso não faria bem algum para nenhum dos dois
se Blaine fosse executado por tentar libertar o elfo, já que ele tinha certeza
que ninguém se importava o bastante para tentar.
Mas
isso aconteceria logo. Porque se tinha a menor chance de Dronyen conseguir
apagar o brilho nesses olhos possuidores das cores do oceano, Blaine nunca se
perdoaria.
Ao cair
da noite, deitado em sua cama, Blaine se retorcia e sussurrava febrilmente para
si mesmo, esperando que ele conseguisse de algum jeito fazer-se ouvir pelo belo
sidhe escravizado três andares abaixo.
– Eu te
amo. – ele sussurrou.
– Eu
vou te salvar.
– Sinto
muito.
– Sinto
muito, sinto tanto.

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