Uma semana. Blaine
decidiu se dar uma semana. Era muito tempo, mas um minuto já era tempo demais
também.
Ele precisava de um
plano. E ele precisava de dinheiro. E ele precisava apenas de uma mísera porção
de confiança do sidhe.
Essa última parte se
provou ser a mais difícil.
Blaine conseguiu
facilmente para si mesmo a tarefa de cuidar do elfo, lhe trazendo café da manhã
e uma muda de roupas na sua primeira manhã.
O sidhe o olhou com olhos
cansados e rosto marcado por lágrimas, e Blaine quase caiu para trás quando viu
o ódio nesse olhar.
Nessa primeira manhã o
sidhe se recusou a falar com ele. Mas Blaine persistiu em trazer ao elfo
pequenos confortos como, lençóis macios, água
quente para tomar banho e um ramo cheio de madressilvas frescas (sua avó sempre
lhe disse que a comida favorita dos sidhes era madressilva).
O ramo de flores lhe
rendeu a sombra de um sorriso, como também a primeira vez que ouvia a voz do
elfo.
– Obrigado.
Blaine repetiu a palavra
mentalmente, apreciando a voz; doce, macia e num mais alto que a média para um
homem, era como um bálsamo para seus ouvidos. Um oásis em meio as horríveis
vozes masculinas que Blaine passa sua vida rodeado, vozes ásperas,
desagradáveis e transbordando de arrogância.
Isso foi a melhor coisa
que já ouviu em toda sua vida.
No quarto dia, Blaine se
atreveu a perguntar o nome do elfo.
Que o olhou desconfiado.
– Por que quer saber?
– Eu... Para eu saber do
que eu devo te chamar. Meu nome é Blaine.
O elfo desviou o olhar. –
Você não conseguiria pronunciar.
– Então do que os humanos
te chamam?
– Eles não me chamam de
nada.
– Então... Do que eu
posso te chamar?
Quando
o sidhe olhou para ele, seu olhar latejava com uma dor cheia de desespero.
– O que você quer de mim?
– ele sussurrou.
Blaine olhou em volta
nervosamente, certificando-se que estavam sozinhos, e aproximou-se, sua testa
quase tocando as barras da cela.
– Eu quero apenas te
ajudar.
O elfo o encarou, e
Blaine nunca se sentiu tão desprotegido e vulnerável frente a um olhar antes.
Ele se forçou a encarar de volta, colocando tudo que ele tinha em um olhar,
fazendo tudo que podia para o sidhe ver.
Eu sou seguro, ele quis dizer com o
olhar. Você pode confiar em mim. Não irei machucá-lo. Eu quero te libertar.
O elfo desviou o olhar
novamente, e Blaine pensou que o tinha perdido, e talvez tudo isso fosse
impossível e talvez-
– Kurt.
– Perdão?
– Meu nome... Você
realmente não conseguiria pronunciá-lo. Mas você pode me chamar de Kurt. É uma
abreviatura, como um apelido que membros da minha feririar usavam para
me chamar.
– Sua fer...?
– Suponho que aqui seria
como minha tribo? Rebanho? – Kurt suspirou. – Das pessoas da onde eu vim.
Ele
parecia tão melancólico que Blaine quase se odiou por ter perguntado.
– Kurt.
- Blaine disse pensativo. – É lindo. Nunca ouvi algo assim antes.
Kurt deu de ombros. – Meu
nome inteiro é mais bonito.
– Como ele é? Quero
dizer... Mesmo que eu não consiga pronunciá-lo, posso ouvi-lo? Talvez? Se...
Você quiser me dizer, claro. Você não é obrigado.
Kurt o encarou. Ele
parecia não saber o que fazer de Blaine. Blaine ofereceu um sorriso nervoso.
Kurt quase – mas não
completamente – sorriu de volta e então falou seu nome.
Ele estava certo nas duas
coisas: não tinha jeito nenhum que Blaine conseguiria pronunciar isso, ou mesmo
chegar ligeiramente perto.
E a outra? Era lindo.
No entanto, ele conseguiu
escutar Kurt enterrado no nome, o que fazia sentido que essa seria a
parte retirada para um apelido.
Blaine sorriu. – Prazer
em te conhecer, Kurt.
A expressão de Kurt se
fechou.
– Não faça isso. – ele
disse sem rodeios, dando as costas para Blaine.
– Não fazer o que?
– Finja que somos amigos.
Que pelo menos somos amigáveis um com o outro. Finja que você me vê como algo
um pouco mais do que um animal. Finja que você não sabe o que seu príncipe faz
comigo toda noite.
Blaine engoliu em seco.
Ele não sabia o que dizer.
Kurt foi até a janela
gradeada e olhou para o pátio. Blaine sempre achou isso estranho, que a cela
tivesse uma das melhores vistas no castelo. Provavelmente era mais para que toda a corte tivesse um
vislumbre da possessão mais bela do príncipe do que Kurt tivesse uma bela
vista.
– Kurt, eu não o vejo
como algo um pouco mais que um animal. De fato, eu o vejo mais do que humano,
se a maioria dos humanos que conheci na minha vida é algum patamar.
Kurt não se virou.
– E... Eu tenho absoluta
certeza que Dronyen nunca perguntou o que você queria fazer o que me faz pensar
que ele provavelmente vem fazendo coisas a você do que com você.
E eu sei Kurt, eu realmente sei, que o que ele faz não é sua culpa. Isso não
faz de você menos... Perfeito.
Kurt se apoiou mais
contra o parapeito, mas continuou a olhar para fora, longe de Blaine.
Depois de alguns
momentos, Blaine saiu, sentindo-se vazio.
Ele não viu que havia
lágrimas nos olhos de Kurt.
A noite tinha chegado e
Blaine não conseguia ficar parado. Ele passou a semana inteira andando numa
corda bamba, arriscando ser pego por uma de muitas coisas a qualquer momento.
Em primeiro lugar estão
todas as coisas que ele tinha roubado do palácio. Roubado de Dronyen.
Então tinha o fato de que
ele tinha vendido a maioria no mercado negro.
A carruagem que ele tinha
esperando na floresta fora do muro da cidade? A que tinha todos os mapas para
Faerie e mercadorias roubadas da guarda palaciana? Tinha isso também.
E ainda tinha as chaves
que ele tinha pegado "emprestado" do porteiro e as tinha copiado
depois de embebedá-lo com licor uma noite dessas.
Sem mencionar o fato de
que ele subornou o cozinheiro. E o fato que o cozinheiro colocou algo para
dormir na sopa do jantar.
E agora Dronyen e todos
seus homens, a princesa Brissa e todas suas damas, estavam desacordados,
enquanto Blaine movia pelo palácio rapidamente, com o coração a mil.
Isso tinha que dar certo.
Tinha que dar.
Quando Blaine chegou à
cela do Kurt, ele subitamente esqueceu sobre si mesmo, seu plano, a urgência, o
risco, tudo isso, porque ele não podia evitar ter um momento para apenas olhar.
Kurt havia feito um ninho
com os lençóis que ele lhe tinha trazido, e estava encolhido num canto
iluminado pelo luar. Suas vestes recém-lavadas que Blaine lhe tinha dado
consistia de um par de calças e uma túnica que tinha o laço do pescoço solto o
que a deixava cair aberta. Sua boca estava ligeiramente aberta, e ele estava
tão deslumbrante que Blaine mal podia se manter de pé enquanto o observava.
Essa foi a primeira vez
que Blaine o viu parecer tão sereno.
Odiando o fato de ter que
acorda-lo, mas lembrando da situação, Blaine hesitantemente falou.
– Kurt.
Nenhuma resposta.
Blaine repetiu seu nome
um pouco mais alto, e depois mais alto um pouco ainda, e então fez uma
constrangedora tentativa de pronunciar o nome inteiro, o que realmente o fez ficar agradecido por Kurt
não ter acordado para ouvir tal coisa.
Ele não sabia o que fazer
quando o elfo continuava a dormir apesar de suas tentativas. Ele não queria ter
que entrar na cela e chacoalhá-lo – depois de ser estuprado toda noite durante
uma semana e Deus sabe o quanto mais antes disso, Blaine tinha certeza que não
iria arriscar tocá-lo sem permissão.
Hesitante pelo silencio
ensurdecedor, Blaine bateu suas chaves contra as barras fortemente.
Kurt pulou em
consequência do barulho, sentando abruptamente e parecendo aterrorizado.
– Kurt. – Blaine
sussurrou. – Sou eu.
Kurt fez um pequeno
barulho estrangulado por medo e confusão.
– É o Blaine. – ele
clarificou, no que ele esperava fosse uma voz calmante. – Olha, eu sei que você
provavelmente está amedrontado agora, e isso é muita coisa para acordar e
absorver, mas temos que sair agora mesmo.
– Eu... Blaine?
– Sim.
– Isso é um sonho?
– Não.
– Não estou entendendo.
– Nós... Nós temos que
sair. Agora. Fugir. Dar o fora daqui. Para que você seja livre?
Kurt apenas o encarou.
– Sim.
– Por quê?
– Porque eu não aguento
mais ver você desse jeito. Porque essa vida está fazendo de mim uma pessoa
horrível. Porque...
Eu não sei, eu acho que é
porque isso significaria que eu finalmente estou fazendo algo do que eu poderei
ficar orgulhoso.
Kurt não pareceu
convencido.
Blaine deu um suspiro
irritado. – Tempo é algo fundamental aqui, Kurt. Eu tenho planejado isso toda
essa semana. Eu só preciso que você venha comigo. Você confia em mim?
– Não.
Blaine riu nervosamente.
Certo. Claro. Por que demônios Kurt confiaria nele? Essa havia sido uma
pergunta idiota.
– Bem, pelo menos você
confia em mim mais do que no Dronyen?
– Eu não sei.
Oh. Bem, aí está. Blaine
tinha esperanças de que ele tinha alcançado um pouquinho até agora, mas
claramente ele não tinha entendido quão poucas razões o elfo teria se
ele fosse confiar num ser humano.
Blaine se remexeu
inquieto. Certo. Se isso era realmente sobre libertar Kurt, e não sobre Blaine
fugindo com algum belo garoto que ele tinha se convencido que estava
apaixonado, Blaine tinha que provar isso. Para si mesmo tanto quanto para o
Kurt.
– Olha Kurt, eu tenho uma
carruagem esperando do lado de fora dos muros da cidade contendo mapas para as
terras de Faerie. Dronyen e Brissa e todo o pessoal no palácio estão dormindo
sob efeitos de drogas, mas eu não tenho certeza de quanto tempo isso vai durar.
Se você quiser, você pode vir comigo e nós podemos tentar te levar até sua
casa. Ou, você pode ficar aqui. Ou, você pode deixar eu te ajudar a escapar e
depois você pode ir sozinho para onde quer que seja e nunca mais me ver tão
logo deixemos a cidade para trás. No entanto eu espero que você pelo menos
considere ficar comigo até que o efeito da verbena passe, porque desse modo
seria mais seguro para você. Mas é você quem sabe. Eu não irei te forçar a
fazer qualquer coisa. Mas eu irei te dizer isso - se vamos sair, nós
temos que fazer isso ainda nesse minuto. Porque eu tenho um pressentimento que
quando as coisas começarem a dar errado, elas vão dar errado rápido.
Kurt o encarou por um
momento, sua expressão ilegível.
– Está bem. – ele disse
finalmente. – Vamos.
Chegar ao pátio foi
fácil, atravessar os muros do palácio era mais difícil. Blaine e Kurt tiveram
que se esconder nas sombras por um bom tempo, estudando os movimentos dos
guardas de patrulha, até que eles se sentissem corajosos o bastante para
continuar. Havia um pequeno portão a uns trezentos metros de distância da
entrada principal, usado principalmente pelos empregados e pessoas do tipo. Era
grande o bastante para apenas uma pessoa passar, e se eles tinham calculado
certo, conseguiriam passar despercebidos.
Blaine empurrou a chave
roubada que ele acreditava que era a certa na fechadura na pequena porta.
Não funcionou.
Entrando em pânico,
Blaine começou a tentar chave por chave, olhando para todos os lados em caso de
serem descobertos.
Ele ouviu um delicado
sobressalto atrás de si, e viu Kurt se esconder nas sombras justo quando
Tepper, um dos guardas noturnos, se aproximou.
– Quem... Blaine?
– Uhmm, sim. Oi Tep. Eu
estava apenas... Não conseguia dormir, então estava indo fazer uma caminhada.
Tepper franziu o cenho,
se aproximando.
– Por que você está
usando essa porta?
– Eu não queria incomodar
ninguém para abrir o portão principal.
– Como você conseguiu a
chave?
– Sua Majestade me deu.
Ele disse que eu podia usar.
Tepper continuou a se
aproximar.
– Ei, espera ai, esse não
é o si-
Aconteceu tão rápido, que
Blaine quase não acreditou. Tão logo Tepper estava ao alcance, Blaine jogou as
chaves para Kurt enquanto ele atirou sua mão e acertou a palma contra a testa
do guarda.
Tepper caiu no chão.
Blaine o pegou por
debaixo dos braços, olhando em volta logo quando Kurt conseguiu abrir a porta.
– Rápido! – Blaine sussurrou
urgentemente,
Kurt foi para o lado
dando passagem para Blaine arrastar Tepper através do portão e depois os
seguiu, trancando a porta atrás de si.
– O que você vai fazer
com ele? – Kurt sussurrou, soando nervoso.
– Amordaçá-lo e
amarrá-lo. Eu não quero que ninguém o encontre até que estejamosbem
longe daqui.
– Por que não apenas
matá-lo? – a pergunta veio sem emoção.
Blaine olhou para Kurt
surpreso. – Tep não é uma má pessoa. Ele apenas... Ele apenas não conhece nada
diferente. Não é como se ele merecesse morrer.
Kurt bufou e se virou.
– O que?
– Nada. É só que...
Interessante o quanto as pessoas parecem reverenciar a vida humana, só
isso.
Blaine deixou isso de
lado, porque realmente eles não tinham tempo. Ele se abaixou e colocou Tepper
sobre seu ombro. Eles correram para dentro da floresta, o mais rápido e longe
possível do lugar em que a carruagem estava escondida.
Ele pediu para o Kurt
encontrar videiras fortes enquanto Blaine rasgava as mangas de sua camisa. Uma
ele enfiou na boca do Tepper enquanto a outra iria segurar a primeira dentro.
Tentando deixar-lo numa não tão horrível/desconfortável posição.
Pode ser que demorasse um
ou dois dias para ele ser encontrado, mas ele ia ser encontrado. Porque
uma vez que ficasse claro que a possessão mais preciosa do príncipe Dronyen foi
roubada, a guarda palaciana estaria logo passando o pente na floresta.
Depois Kurt e Blaine
seguiram para o lugar onde Blaine deixou seu cavalo junto com uma pequena
cabine. Seu coração se apertou quando ele desamarrou o animal, dando-lhe em
seguida um tapa firme na sua traseira, urgindo-a para longe.
– Adeus, garota. – ele
murmurou. Ele esperava que ela ficasse bem. Realmente não tinha como levá-la
com eles, já que ela era fácil de identificar e não era rápida o bastante para
o que ele tinha em mente. Porém ela daria uma boa distração, o que Blaine
esperava atrasar a inevitável caçada que aconteceria.
A égua correu com a carruagem deixando rastros pelo caminho.
– Essa é a parte difícil.
– Blaine disse para Kurt suavemente. – Nós não podemos deixar rastros, então
evitamos o máximo pisar no solo.
Eles andaram sobre pedras
e troncos de árvores até Blaine parar em frente certa árvore e apontar para
cima, sinalizando para subirem.
Uma vez que estavam altos
o bastante, havia um caminho de árvore em árvore se eles se focassem nos galhos
mais grossos. Mesmo cheio de verbena, era óbvia a superioridade de Kurt nessa
parte do caminho, ele parecia tão seguro agora quanto andando sobre a terra.
Blaine, do outro lado, engatinhava
vagarosamente, se segurando nos galhos com seus braços e pernas, torcendo para
não cair.
Finalmente eles pularam
do lado da carruagem. Blaine sinalizou com a cabeça para Kurt entrar.
Blaine acendeu as
lamparinas e preparou os cavalos. Havia uma rede feita de crina de cavalo
adjunta a traseira da carruagem para apagar os rastros. Eles não iriam por
nenhuma trilha, mas Blaine já tinha determinado um caminho complicado que os
levariam a uma estrada bem longe dos muros da cidade.
Quando Blaine abriu a
porta da carruagem, Kurt viu que ele estava apenas com a roupa debaixo.
Sobressaltado, com pavor e compreensão passando pela sua face.
Blaine arregalou os
olhos. – Oh! Não... Eu... Eu tenho que trocar de roupa. Isso só vai dar certo
se as pessoas pensarem que você... Que eu sou se dono. – Blaine hesitou frente
a suas próprias palavras.
– Eu tenho que parecer
rico. Eu... Tenho algumas coisas aqui. Você poderia, por favor, me passar essa
bolsa?
Kurt lhe passou a bolsa
em silêncio.
E em silêncio Blaine
trocou de roupa.
– Então, Kurt, eu vou
levar a gente para o mais longe daqui possível. Esses são cavalos velozes e eu
vou pegar firme. Quando estivemos a uma boa distância de Villalu faremos um
intervalo, mas até então, você poderia dormir.
Kurt apenas balançou a
cabeça e se recostou no assento de veludo.
Blaine subiu no banco da
dianteira da carruagem e pegou as rédeas.
E era isso.
Ele estava indo embora.
E Kurt estava indo com
ele.
Blaine deu um puxão firme
nas rédeas e saiu disparado pela noite.

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